O atemporal em psicanálise
- Carlos Castro
- 22 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025
Quando me pergunto “o que é atemporal em psicanálise?”, vejo que não estou apenas diante de uma questão técnica, mas frente a um problema fundamental que toca a própria natureza do inconsciente e a sua relação com o tempo histórico. Na litura do livro “O tempo e o Cão” é possível observar como Maria Rita Kehl, apresenta a existência de fenômenos que, embora historicamente situados, revelam aspectos estruturais da condição humana que resistem à passagem do tempo cronológico.
Freud, nos apresenta o inconsciente como uma instancia atemporal. Esta atemporalidade não significa ausência de tempo, mas sim uma temporalidade própria onde "os processos inconscientes não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo” (Barbosa, 2024), ou seja, o inconsciente é atemporal se a referencia for o tempo cronológico. O inconsciente opera numa lógica onde o passado, presente e futuro coexistem de forma continua e entrelaçada, permitindo que as experiencias vividas, independente de sua temporalidade na cronologia da vida sejam constantemente reinscritas no presente.
Kehl, ao fazer uma genealogia da depressão, em seu livro, insere no tempo histórico instância psíquica na teoria psicanalítica, o supereu. Concepção, temporal, já trabalhada por Freud, por isso segue a citação futuro de uma ilusão:
É inexato que a alma humana não tenha realizado progresso nenhum desde os tempos mais primitivos e que, em contraposição com os progressos da ciência e da técnica, seja hoje a mesma que no princípio da história. Podemos indicar aqui um de tais progressos anímicos. Uma das características de nossa evolução consiste na transformação paulatina da coerção externa em coerção interna, pela ação de uma instância psíquica especial do homem, o supereu, que vai acolhendo a coerção externa entre seus mandamentos.
A discussão de Kehl sobre o supereu oferece uma perspectiva crucial para compreendermos como elementos atemporais da psicanálise se articulam com transformações históricas específicas. Citando Freud, a autora demonstra que o supereu representa "a transformação paulatina da coerção externa em coerção interna", constituindo-se como um avanço civilizatório característico da modernidade.
Esta instância psíquica, embora estrutural, ganha configurações históricas específicas. O supereu freudiano surge como resposta às condições particulares do século XIX, quando as formas tradicionais de autoridade externa começaram a se fragmentar. Assim, paradoxalmente, uma instância atemporal do psiquismo (o supereu) emerge como produto de um momento histórico específico, revelando como o atemporal e o temporal se entrelaçam na constituição subjetiva.
Kehl propõe que "os verdadeiros avanços civilizatórios (...) são avanços nas possibilidades de simbolização do Real". Esta formulação é fundamental para compreendermos a dimensão atemporal da psicanálise. O exemplo da histeria ilustra perfeitamente esta questão. As histéricas do século XIX não representavam apenas um fenômeno patológico, mas ”um sintoma social que sinalizava a inadequação dos modos tradicionais de simbolizar a diferença sexual” (Kehl, 2009) frente às "novas configurações que se abriram na vida das mulheres, em um mundo recentemente modificado pelo capitalismo liberal" (Kehl, 2009). A histeria, enquanto estrutura psíquica, mantém-se atemporal, mas suas manifestações revelam os impasses específicos de cada época na tentativa de simbolizar o Real.
A questão provocativa - "um romano, filho de um soldado que lutou nas guerras púnicas, poderia fazer uma análise?" - revela a complexidade da relação entre atemporal e histórico em psicanálise. Se considerarmos a estrutura do inconsciente como atemporal, a resposta seria afirmativa: os mecanismos de recalque, a divisão subjetiva, a relação com o desejo do Outro são constantes trans-históricas.
Contudo, a psicanálise como dispositivo específico de simbolização é produto da modernidade. Ela surge precisamente quando "as tradições perdem a força de determinar os destinos das novas gerações" e "o Outro deixa de estar representado, imaginariamente, por uma única e incontestável figura de autoridade". A psicanálise emerge como resposta à condição moderna onde o sujeito é "obrigado a se afirmar como centro de suas referências".
O atemporal em psicanálise não se opõe ao histórico, mas se articula com ele de forma complexa. A estrutura psíquica permanece atemporal, mas suas manifestações sintomáticas revelam os impasses específicos de cada época na tentativa de simbolizar o Real. O supereu, embora instância estrutural, ganha configurações históricas particulares. A própria psicanálise, enquanto práxis, surge como resposta moderna aos dilemas atemporais da condição humana.
Esta articulação nos permite compreender como fenômenos contemporâneos - como a depressão analisada por Kehl - podem ocupar o lugar que outrora foi da melancolia, mantendo a função atemporal de sinalizar o mal-estar na civilização, mas assumindo formas específicas de nosso tempo histórico. O atemporal em psicanálise é, assim, aquilo que resiste ao tempo cronológico mantendo-se como questão sempre atual para o sujeito, independentemente de sua época histórica, mas que só pode ser abordado através dos recursos simbólicos disponíveis em cada momento civilizatório.
BARBOSA, Danielle. O tempo e o Inconsciente. Remate de Males, v. 44, n. 1, 2024.
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. L&PM Editores, 2010.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão a atualidade das depressões. Boitempo editorial, 2015.


