A função do trauma na constituição do sujeito
- Carlos Castro
- 8 de jan.
- 5 min de leitura
Da escuta de um “externo”, de uma impossibilidade no corpo que escapava a medicina da virada do século passado, Freud abriu um campo para pensar o mais intimo, aquilo que não tem nome, o sujeito. De um organismo guiado pelos instintos, com a psicanálise houve uma transição para alguém que se constitui a partir da entrada no campo da linguagem. No entanto, essa entrada, justamente por engendrar um sujeito não instintual, o desloca para fora das determinações do campo biológico, mesmo que, este possa fazer com.
A entrada na linguagem localiza a sedução como um acontecimento fundamental. O sujeito não nasce no parto, nasce ao ser capturado pelo desejo do Outro. O Outro o deseja e demonstra esse desejo ao inseri-lo no campo da linguagem, ao sujeita-lo a ela, transformando-o em objeto. É a partir dessa relação que o sujeito se pergunta: “o que o Outro quer de mim?” ou “o que o Outro deseja, para que eu ocupe o desejo do Outro”. É nesse jogo que a sedução se instaura.
Ao longo da história moderna da sexualidade, até o advento da psicanálise, a relação sexual foi pensada a partir de um viés biologicista, sob a primazia da genitalidade. A criança seria concebida como um ser pré-sexual, à espera da puberdade para ingressar na vida sexual adulta. Freud rompe com esse modelo ao demonstrar que, na infância, há uma sexualidade pulsional que não depende de um objeto natural. Ao desvincular a sexualidade da genitalidade, o psicanalista torna possível pensá-la para além das zonas genitais e a situa na relação com o outro. Lacan avança e reconhece que a sexualidade é estruturalmente marcada pela linguagem. O sujeito é sexualizado porque é falado, nomeado e desejado, e isso só ocorrendo pela via da sedução.
Quando dizemos que o sujeito é introduzido na linguagem pela sedução, não nos referimos a uma sedução intencional, nem a uma fantasia erótica. Trata-se do modo como o desejo do Outro se dirige ao infans, investindo-o com significantes — expectativas, cuidados e olhares — que o atravessam, que fazem corte, e que nesse movimento criam bordas e litorais. É nisso que a sexualidade emerge. O filho é efeito desse convite, da sedução parental, e, por isso, já nasce marcado sexualmente.
A linguagem, portanto, não é inata, mas forma o sujeito ao ser imposta ao corpo, ao passo que o cria como um corpo, limitando-o com palavras como “que bebê bonito”, “como ele sorri”, “não faça isso, vai se machucar…”. Essa imposição sobre o corpo produz um corte entre esse pequeno vir a ser e o Outro. É o Outro que diz quem ele é e, por isso, o infans não é um outro. Trata-se de um corte que separa e que, ao desestabilizar aquilo que um dia era, tem efeito traumático. Esse trauma funda o sujeito, pois, ao traumatizar, desequilibra e incita o movimento de recuperar o equilíbrio perdido, isto é, de assimilar o trauma.
O trauma, ao romper um equilíbrio e obrigar à sua restituição, à sua assimilação, instaura, nesse movimento, uma nova dimensão: a dimensão simbólica, a dimensão da substituibilidade. Algo se perde, e o que ocupa o seu lugar é a linguagem. É essa lógica que atesta que a palavra nunca fala da Coisa (Das Ding), pois a coisa está perdida. É o trauma, a partir do perdido e da sua substituição pela linguagem, que permite, na primeira infância, que o sujeitinho produza a sua cadeia significante. A Coisa se perdeu, e as palavras, para aquele sujeito, de forma singular, vão se encadeando na tentativa de tamponar esse furo.
Lacan compreende esse golpe como um acontecimento contingente. Ele acontece, mas poderia não ter acontecido; marca, mas não havia nada que o tornasse necessário — assim como o instinto é necessário ao animal. O trauma é acidental e, justamente por isso, é estrutural na formação do sujeito. Essa dimensão contingente do trauma revela algo essencial: o que causa o sujeito é uma causa acidental que, ao fundá-lo, torna-se universal. A universalidade que funda o sujeito não é biológica, mas simbólica, própria do ser falante.
Contudo, até então, o que temos é uma circunstância traumática. O trauma ao instaurar o sujeito na linguagem, não produz imediatamente sentido ou sintoma — isso requer um dois. O golpe contingente que inaugura o sujeito introduz uma perda e, com ela, um vazio de sentido que torna possível a rede simbólica. A partir disso, o sujeito constrói a cadeia significante que o “define”. É essa operação que Lacan chama de S1.
Esse ponto inaugural só adquire eficácia quando é reinscrito na cadeia significante, isto é, quando uma segunda circunstância, igualmente contingente, vem retomá-lo. Algo da ordem de um acaso intervém e desestabiliza essa cadeia, ao marcar nela um vazio ainda impossível de simbolização. Ou seja, o trauma provocou um vazio, diante disso, as palavras se aglutinam, formando uma cadeia de significantes frente aquilo que não é possível significar.
Um segundo evento, também contingente, desestabiliza outra vez a ordem, novamente as palavras se aglutinam, formando uma cadeia de significantes frente aquilo que não é possível significar. É diante disso que podemos ver a marca de um traumático, daquilo que ainda não pode ser simbolizado. Assim, o trauma não opera de forma direta, mas como aquilo que assinala uma marca na espera de significação. Sua força não reside no acontecimento em si, mas na articulação significante que, a posteriori, o conecta a outros elementos da história do sujeito.
É nesse sentido que o trauma, enquanto acontecimento significante, não age de forma isolada. Ele exige a incidência de um segundo significante que lhe confira eficácia retroativa, pois seus efeitos são sempre retardatários. Lacan indica essa lógica ao formalizar a relação entre S1 e S2. O primeiro pode permanecer em latência, adormecido, até que o segundo surja e ressoe nesse ponto esquecido, estabelecendo uma ligação entre os dois. Essa articulação, ignorada pelo sujeito, é o que dá consistência ao trauma. Entre S1 e S2 opera um deslizamento metafórico: há, em S2, uma questão que se articula a S1, uma lei que os une. Um evoca o outro, um representa o outro. S2 simboliza S1, fazendo dele metáfora. É essa metáfora desconhecida pelo sujeito que orienta sua ação e sustenta o sintoma.
Não é a falta, em si mesma, que traumatiza, mas o laço significante que se estabelece, ou falha em se estabelecer, entre dois acontecimentos. A repetição, nesse contexto, não é o retorno do mesmo, mas a insistência no ponto onde o sujeito toca novamente sua falta. É uma tentativa de simbolização. Por isso, o trauma retorna: não porque o sujeito deseja revivê-lo, mas porque algo ali insiste em ganhar sentido. A repetição, assim como o sintoma, são modos pelos quais o sujeito lida com o impossível de simbolizar.
Não se trata, portanto, de pensar o trauma como um acidente excepcional, mesmo que esteja banhado pelo acaso, mas pensá-lo como uma operação na qual um acontecimento contingente se articula ao simbólico. É por essa marca de uma falta, deixada pelo trauma, que o sujeito deseja, repete e cria. É por viver na linguagem que o sujeito é produto de um mal-estar, de ser resultado de uma contingência inaugural, de carregar uma marca que não se fecha, que falta em se completar, que, no sentido, não encontra um resultado fixo.
Uma análise tem como proposta que o sujeito advenha, que advenha não como aquele sujeito que sofreu, mas o que faz, e que refaz, com o que o marcou. É para restaurar o lugar do trauma como aquilo que faz o sujeito, e não como aquilo que o destrói.
__
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.
FREUD, Sigmund. Pulsões e seus Destinos.
FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
HARARI, Roberto. Quatro Conceitos Fundamentais de Lacan.
LACAN, Jacques. Seminário 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.


